Por que Lettering?

Depois de seis anos estudando e quatro anos trabalhando na área acredito que agora é uma boa hora pra falar sobre isso. Isso não vai ser um livro, prometo, porque para começar eu normalmente não falo muito, sou bastante introvertida. Mas eu te prometo que cada palavra aqui vem do coração.

Por que escolhi as letras? Por que não estudar anatomia e depois trabalhar em concept art, ou mesmo me tornar uma dessas artistas de performance ou contemporâneas que a maioria das pessoas não entende? Eu estava estudando Artes Visuais quando tudo começou e escolhi esse curso porque queria me tornar designer gráfico. Não é exatamente o começo certo, mas isso é apenas uma daquelas coisas que levamos alguns anos para finalmente perceber que são as certas pra gente.

Durante a maior parte do primeiro ano, tudo que consegui fazer foi desenhar cabeças. Elas eram realistas e desenhados com um lápis 6B, o mesmo que eu usava para desenhar algumas letras de música que estavam presas na minha cabeça - nada meu, apenas um pouco de Queen, Tears for Fears (obrigada, pai) e The Kooks - eu estou bem longe de escrever (ou tocar) a minha própria música, acredite. Mas entre um crânio muito mal desenhado em tinta preta e um pedaço de Bohemian Rhapsody no meu caderno, eu inventei algo que minha professora de desenho realmente gostava. Não o crânio, é claro, mas a letra realmente mau estilizada que eu havia desenhado.

“Esqueça o resto” ela disse, “invista seu tempo nisso”, apontando para a letra.

“Mas espera, o que? Você está dizendo que eu deveria investir meu tempo escrevendo?” uma pergunta justa, porque isso poderia me fazer mudar do curso de Artes Visuais para Literatura o que era, bom, um pouco confuso.

“Claro que não, estou falando sobre essa coisa em que você desenha letras. Você já ouviu falar de tipografia?”

Comecei a pesquisar sobre letterpress, depois tipografia, caligrafia e no final encontrei essa coisa estranha onde as pessoas desenham letras como ilustração, não apenas para uso no computador. E ainda mais louco, as pessoas consideram isso uma forma de arte! Com isso em mente, dou a maior parte do meu agradecimento a Paula Almozara. Alguns anos depois, ela veio até mim com um projeto de pesquisa da Letterpress e me disse para me inscrever. Ela estava procurando por um estudante para abraçá-lo e fazer o trabalho com ela. É claro que aceitei sem pensar duas vezes e, embora o projeto não tenha sido aprovado pelo governo mais tarde, aprendi muitas coisas incríveis durante esse processo, abraçando ainda mais o mundo das letras que ela me apresentou.

Depois disso, tornou-se mais difícil para alguns outros professores aceitarem que desenhar letras era uma forma de arte, porque nunca tinham visto alguém fazer esse tipo de trabalho, pelo menos não na minha universidade. Mas eu não me importava, era tudo que eu tinha e sabia fazer, e era estranho desenhar uma frase para um projeto de aula enquanto todo mundo desenhava uma cabeça, um animal ou mesmo um corpo. Mas o caminho deles, não era o meu, e eu sabia disso.

Durante o último ano do meu curso de graduação, eu comecei a criar algumas capas de livros com frases sobre a felicidade que eu tinha ouvido (obrigada Grey's Anatomy), e estava começando a fazer trabalhos vetoriais porque era muito caro comprar canetas e marcadores toda semana, e eu já tinha um tablet Wacom e um computador bacana (o muito antigo MacBook Pro 2011, comprado com meu salário de quanto trabalhava na IBM - uma das poucas coisas boas que a empresa permitiu ter até 2012). Eu não podia continuar desperdiçando dinheiro, e o Adobe Illustrator era muito barato para os estudantes (ainda é). Comecei a fazer trabalho de vetor e naquele último ano, conheci outra mulher incrível que também é professora, chamada Luisa Paraguai.

Luisa já conhecia algumas pessoas que eu admirava no mundo da tipografia paulistana, então quando ela se apresentou e eu pude ver todo o seu conhecimento em tipografia e design gráfico, meus olhos começaram a brilhar de felicidade, porque FINALMENTE alguém na minha faculdade me ensinava alguma coisa eu realmente queria passar horas fazendo. Luisa explicou a estrutura básica da tipografia e mostrou a todos algumas referências surpreendentes que eu já havia pesquisado naquela época. Foi tudo que eu sempre quis e a única desvantagem é que eu só tive essa aula por seis meses, quando eu realmente deveria ter tido quatro anos sobre esse assunto durante toda a minha carreira universitária. Quando meu projeto final chegou e eu me senti perdida quando se tratava de paletas de cores e conceitos, Luisa passou meia hora me ensinando sobre a teoria das cores, o que me ajudou tanto que a uso até hoje.

Finalizei meu projeto, me formei e, três anos depois, o Reitor do meu maior departamento me pediu para dar uma oficina de letras para os calouros. O trabalho duro vale sempre a pena e o talento NÃO EXISTE. 🙂

Tradução e Revisão: Mari Pinheiro